
por Cristina Thomé
Meu pai matou minha mãe pela manhã. Era outono e foram trinta facadas frenéticas, desferidas com muita força. Na vitrola laranja, Willie Nelson sustentou sua voz rouca até a agulha chegar ao fim.
Tatuados em minha memória ficaram o sol dourado crescendo na vidraça, o cheiro de torrada e o corpo morto de minha mãe.
Acordei com os gritos e me desvencilhei das cobertas como pude. Ao chegar na cozinha, paralisei. Literalmente. Com a faca suspensa, meu pai olhou pra mim. Também ele, uma estátua. Seus dedos afrouxaram, a faca caiu sobre a poça de sangue.
Levantou-se. Já na varanda, sentou-se na escada, apalpou o bolso da camisa, tirou um cigarro. Acendeu. A outra mão, cujo cotovelo estava sobre a perna, apoiava sua cabeça. Ao terminar, jogou a bituca no chão e começou a caminhar. Suas costas se distanciaram de mim. Nunca mais o vi.
Ficamos eu e minha mãe. Permaneci paralisada. Enfim, despenquei no chão. Cada pedaço meu se dissolveu num choro convulsivo.
Acordei com o rosto comprimido no chão frio da cozinha. Abri os olhos e vi os pés descalços e ensanguentados de minha mãe. Meu corpo doía. Abri o armário e distribuí feijão sobre a mesa. Precisava separar a sujeira do feijão.
Meus pés estavam com sangue. Eu podia ver a boneca de pano sem o olho direito jogada no chão da sala. Eu tinha seis anos e a certeza de não ter mais pai. Ele fora embora. Éramos eu e minha mãe.
Demoraram dois dias para nos encontrar. As marcas vermelhas de meus pés pequenos ficaram pela casa. Escolhi todo o feijão que tínhamos, assim como o arroz. A meu modo, organizei as gavetas e também a camisola branca empapada de sangue coagulado de minha mãe.
Coloquei margaridas de plástico nos cabelos de minha mãe morta. O que fazer com uma mãe morta? Eu não sabia. Dois dias depois me levaram dali.
8 comentários:
imagens fortíssimas. Cris
bj
Já leu Celso de Alencar, você e ele são poetas meio doidos.
Belíssimo.
vim reler...
querendo saber onde se enraíza
essa história e outras histórias
ligadas ao dentro do dentro
Repensei passagens pesadas de família.
bjs e escreva mais, a gente sente falta
O que fazer com uma mae morta?
Lembrá-la viva.
Deixo um abraço.
Nossa. Nossa, nossa, nossa.
To passada. Genial.
Ge-ni-al. Genial.
Demais. Mesmo.
Querida Crisis,
Minha filha tem razão: genial!!!!
vc continuna muiiiiiiiiiiiiiiiiito boa.
beijão.
Sô
Olá Cristina
parabéns por seu conto. É mágico, fascinante. Uma criação extremamente competente. Gostaria que voce me encaminhasse seu email. O meu é cdealencar@hotmail.com
oi cristina, visitei voce aqui! olha, faço show domingo no cabarezinho, gostaria de contar com sua forá e presença! um beijo, rodrigo
manda seu e-mail, o meu e rgarcialopes@gmail.com
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